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sexta-feira, 14 de junho de 2013

O Corvo...

 
Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste...
Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais,
E já quase adormecia, ouvi o que parecia
O som de alguém que batia levemente a meus umbrais
Uma visita, eu me disse, está batendo a meus umbrais.
É só isso e nada mais.
Ah, que bem disso me lembro! Era no frio dezembro,
E o fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais.
Como eu qu'ria a madrugada, toda a noite aos livros dada
P' esquecer "em vão" ELE o meu amado, hoje entre hostes celestiais
Esse... cujo nome sabem as hostes celestiais,
Mas sem nome aqui jamais!
Como, a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxo
Me incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais!!!
Mas, a mim mesma infundindo força, eu ia repetindo,
É uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais;
Uma visita tardia pede entrada em meus umbrais.
É só isso e nada mais.
E, mais forte num instante, já nem tardo ou hesitante,
Senhor, eu disse, ou senhora, decerto me desculpais;
Mas eu ia adormecendo, quando viestes batendo,
Tão levemente batendo, batendo por meus umbrais,
Que mal ouvi... E abri largos, franquendo-os, meus umbrais.
Noite, noite e nada mais.
A treva enorme fitando, fiquei perdido receando,
Dúbio e tais sonhos sonhando que os ninguém sonhou iguais.
Mas a noite era infinita, a paz profunda e maldita,
E a única palavra dita foi um nome cheio de ais —
Eu o disse, o nome dele, e o eco disse aos meus ais.
Isto só e nada mais....
Para dentro estão volvendo, toda a alma em mim ardendo,
Não tardou que ouvisse novo som batendo mais e mais.
Por certo, disse eu, aquela bulha é na minha janela.
Vamos ver o que está nela, e o que são estes sinais.
Meu coração se distraía pesquisando estes sinais.
  É o VENTO," Aahhhh.."O" vento e nada mais.
Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça,
Entrou grave e nobre um CoRvO dos bons tempos ancestrais.
Não fez nenhum cumprimento, não parou nem um momento,
Mas com ar solene e lento pousou sobre meus umbrais,
Num alvo busto de Atena que há por sobre meus umbrais.
Foi, pousou, e nada mais.
E esta ave estranha e escura fez sorrir minha amargura
Com o solene decoro de seus ares rituais.
Tens o aspecto tosquiado, disse eu, mas de nobre e ousado,
Ó velho corvo emigrado lá das trevas infernais!
Dize-me qual o teu nome lá nas trevas infernais...
Disse-me o corvo, "Nunca mais".
Pasmei de ouvir este raro pássaro falar tão claro,
Inda que pouco sentido tivessem palavras tais.
Mas deve ser concedido que ninguém terá havido
Que uma ave tenha tido pousada nos seus umbrais,
Ave ou bicho sobre o busto que há por sobre seus umbrais,
Com o nome "NUNCA MAIS".
Mas o corvo, sobre o busto, nada mais dissera, augusto,
Que essa frase, qual se nela a alma lhe ficasse em ais.
Nem mais voz nem movimento fez, e EU, sempre eu ...em meu pensamento
PeRdIdO, murmurei lento, "Amigo, amor, sonhos" — mortais
Todos — todos lá se foram. Amanhã também te vais.
Disse o corvo, "Nunca mais".
A alma súbito movida por frase tão bem cabida,
Por certo... disse eu, são estas vozes usuais.
Aprendeu-as de algum dono, que a desgraça e o abandono
Seguiram até que o entono da alma se quebrou em ais,
E o bordão de desesp'rança de seu canto cheio de ais
Era este "Nunca mais".
Mas, fazendo inda a ave escura sorrir a minha amargura,
Sentei-me defronte dela, do alvo busto e meus umbrais;
E, enterrado na cadeira, pensei de muita maneira
Que qu'ria esta ave agoureira dos maus tempos ancestrais,
Esta ave negra e agoureira dos maus tempos ancestrais,
Com aquele "Nunca mais".
Comigo isto discorrendo, mas nem sílaba dizendo
À ave que na minha alma cravava os olhos fatais,
Isto e mais ia cismando, a cabeça reclinando
No veludo onde a luz punha vagas sombras desiguais,
Naquele veludo onde ela, entre as sombras desiguais,
Reclinar-se-á nunca mais!
Fez-me então o ar mais denso, como cheio dum incenso
Que anjos dessem, cujos leves passos soam musicais.
«Maldito!», a mim disse, deu-te Deus, por anjos concedeu-te
O esquecimento; valeu-te. Toma-o, esquece, com teus ais,
O nome da que não esqueces, e que faz esses teus ais!
Disse o corvo, "Nunca mais".
«Profeta», disse eu...profeta — ou demónio ou ave preta!
Pelo Deus ante quem ambos somos fracos e mortais,
Dize a esta alma entristecida se no Éden de outra vida
Verá essa hoje perdida entre hostes celestiais,
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais!
Disse o corvo, "Nunca mais".
Que esse grito nos aparte, ave ou diabo!, eu disse... Parte!
Torna à noite e à tempestade! Torna às trevas infernais!
Não deixes pena que ateste a mentira que disseste!
Minha solidão me reste! Tira-te de meus umbrais!
Disse o corvo, "Nunca mais".
E o corvo, na noite infinda, está ainda, está ainda
No alvo busto de Atena que há por sobre os meus umbrais.
Seu olhar tem a medonha dor de um demónio que sonha,
E a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão mais e mais,
E a minh'alma dessa sombra, que no chão há mais e mais,
Libertar-se-á... nunca mais!
 
 
The Raven  
Edgar Allan Poe
 
 
 
 
                                                Filha de Morpheu
                                       Corvos... Apetece-me TANTO...
                                                                                                    

terça-feira, 12 de março de 2013



(...)
“Em completa desolação, olhei para o mundo lá em cima...
Vi o céu transformar-se de prata em cinza e em cor de chuva...
Até as nuvens tentavam fugir...
Vez por outra, eu imaginava como seria tudo acima daquelas nuvens, sabendo,
sem sombra de dúvida, que o sol era louro e a atmosfera interminável era um gigantesco olho azul.”


“No começo, Liesel não conseguiu dizer nada...
Talvez fosse a súbita turbulência do amor que sentiu por ele...
Ou será que sempre o tinha amado?
Era provável.
Impedida como estava de falar, desejou que ele a beijasse...
Quis que ele arrastasse sua mão e a puxasse para si...
Não importava onde a beijasse. Na boca, no pescoço, na face. Sua pele estava vazia para o beijo, esperando.”


                                                  — A menina que roubava livros, Markus Zusak.




segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013




...

- Que quer dizer "cativar"? 

- É uma coisa muito esquecida, disse a raposa. Significa "criar laços"... 

- Criar laços?

- Exatamente, disse a raposa. Tu não és ainda para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens também necessidade de mim. Não passo aos teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. E eu serei para ti única no mundo. 
(...)Os homens esqueceram essa verdade, disse a raposa. Mas tu não a deves esquecer. Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas.
                                   
                                                                                                               " O pequeno príncipe"


                                                                                                   You make it real - James Marrison
                                                                               

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

                                                          

                                                     
 Pintei o cenário
 e coloquei no prumo;
 varri a plateia,
 arrumei os bastidores.
 No camarim, frutas e champanha:
eu seria a personagem principal.
Depois repassei minhas falas,
provei minhas fantasias,
e me pus a chorar:
numa escada invertida,
nem em cima
nem embaixo,
passavam estranhas figuras,
grandes demais para mim.

( Eu andava pelo palco, sem sapatos nem rumo.)

Alguém me chama, bem atrás na plateia:
um aceno, uma voz sumida
parece dizer meu Nome.
* É alguém de óculos, pois as lentes refletem a luz do teto.*
Posso responder?
Devo acenar de volta?
Atrás de mim
alguém veste os bonecos da VIDA
e as estátuas da MORTE.
Euforia e Medo,
é com eles q vou contracenar
( ou é comigo mesma?).

( Por cima do nariz de palhaço ajeito meus óculos para ver melhor)

O cenário é uma casa,
cabana ou um castelo.
Alguns manequins de plástico são os atores:
Soldados, reis, servos e príncipes
 E alguém q já MORREU.
Portas abrem ou fecham num longo corredor,
para eu inventar os objetos e falas.

Posso mudar tudo:
criar árvores no mar,
pássaros e trilhas
que se entrecruzam
incomunicáveis.

Viver é todos os dias partejar a vida.
( Ela nasce com cabeça grande demais, muitos braços
- ás vezes sem pernas.)
Dar à luz dói.
Faço isso todos os dias,
exposto como num palco:
aquele bonequinho 
sou eu
num mundo q vou montando.

Mas nem tudo me assusta,
nem tudo me prende:
posso abrir algumas portas,
posso fechar outras, 
posso escolher o sexo
e a cor dos olhos de cada um.

Postei-me na beira do palco:
terminada a última fala,
o gesto final concluído.
Dobro-me em dois para agradecer,
pois me aplaudem:
pareço uma criança pronta para entrar

( Em uma casa nova )

Se eu erguer o rosto e abrir os olhos,
se pedir papel e caneta
ou meu computador,
poderei reescrever tudo ou parte do q fiz.
Pois cada sopro de voz aqui
e cada gesto que se desenha
reverberam por todos os quartos 
que se expandem
e corredores que se desenrolam,
na renovação do SONHO
e completude do círculo.

Para o sempre do sempre Amém....


                                              ( Costumo chama-la de A PEQUENA NOTÁVEL....."Lya Luft" )
                                                * Os dias por aqui andam frios.....*